A Curva Palavra de Sempre

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Feminino plural

Sou mulher demais. Sou menina, mãe e parceira. Sem frescura, devoro com os olhos, bato de cara com o pilar olhando o passarinho, faço bolo de cenoura e pergunto se vai sair sem a blusa porque vai esfriar.

Em tudo feminina, mas não mocinha princesa  e fragíl.

Ta aí o que eu não sou. Pra quê? De tudo, o melhor é o defeito.

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Sussurro*

Eu sei o que quero, só não sei como. E não parece que as coisas vão se encaixar sozinhas.

(*devia ter menos letras dobradas, acaba com a poética)

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Sobre Livros e Bibliotecas

ou Porque Legalizar a Prostituição

Mulheres e homens a vontade para escolher, como num açougue. Mulheres de cabelos castanhos e olhos claros, com os olhos castanhos, loiras, mulatas, com silicone, com os lábios cor de carmim, curiosas, com cabelos curtos ou longos, ruivas muito brancas, roupas muito curtas, vidas muito longas, com muito frio, enfermeiras, princesas, garçonetes, que pintam, que dão festas, que querem casar, que inundam com os olhos, que conversam com o vento, que dançam a noite inteira, que gostam de comidas exóticas. Homens altos, jovens desafiadores, gordinhos e fofos, malditos, com pouco cabelo, com rastafari, cachos, terno, gravata e curso superior, um emprego no banco, um emprego em Wall-street, transformados, com pacto com diabo, que só sabem contar até cinco, sem senso de humor, com o mesmo nome do pai, do avô, do tio, que gostam de criança, ou vomitam coelhinhos. Levo-os comigo e temos noites quentes de sexo juntos. Sinto todo o meu corpo de novo, como se nunca tivesse me conhecido de verdade, nunca tinha sentido isso assim. Alguns ainda me fazem rir e chorar de dor e prazer. E então me pedem carona. Eu os levo de volta à biblioteca, eles voltam exibir suas lombadas marcadas pela vida que levam, voltam ao exercício da sedução. Eu ajeito a saia, limpo o batom borrado e finjo que entrou um cisco no meu olho, só isso. É frio e longo o caminho de volta.

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Abraço

Você é meu abraço mais antigo e mais apertado.

Alguns dias ao invés de abraçar o corpo, abraça a garganta.

Vira nó e são saudades.

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A dor e a delícia

Toda uma cidade pra me fazer esquecer que sangro, museus, livros, carros, máquinas de lavar. Toda uma civilização pra me fazer esquecer que sangro, que morro, que choro. Toda uma sociedade pra me fazer esquecer que sangro, que lobo, que mordo. Esqueço-as uma vez por mês: menstruação.

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Xeque

Lá vai a torre, agora eu perdi o jogo. Ele vai atacar meu bispo e se eu for querer me vingar com a rainha abro caminho pro xeque com o cavalo. Sem eu ver. Daqui a pouco ele avança pela diagonal, come meu rei, meu copo de água, meu braço, minha roupa toda. Mate.

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Estou rindo mais fácil

copoPassei uma tarde toda olhando a sombra da árvore que entra pela janela. Fico feliz de verdade por causa do passarinho de casaca e camisa amarela. Estou apaixonada sem doença ou vício por uma de cores cartela. Cantar alto é precisamente o que nunca mais fiz depois dela. A letra se expande, cresce e toma a página toda. A vida é uma só viagem, é colorida e bela. Como é belo o reflexo da piscina na parede, como é bela a minha árvore. Santa Bárbara deve florir logo e as amoras ficam doces. Todo um jogo simbólico que me esqueço apenas para voltar a lembrar. Gaivotas, conchinhas, flores brancas e roxas e rosas, manacás floridos, flamboyant, abacateiro e flor de laranjeira. Espinhos coloridos de rosa, os jardins intocáveis das minhas bruxas. O gosto de carambola no pé, a goiabeira que só amadurecia frutos bichados. Meus sonhos de princesa, minha Emília, minha maturidade infantil. Acentos, antônimos, o jogo de lembrar e deduzir. A ciência nascente, a descrença prometida. O gosto pela adivinhação. Como se esconde um elefante na plantação de moranguinhos? Esmalte vermelho. Quero sempre me esconder entre os moranguinhos e os elefantes. Quero ver e provar, entender não mata a magia, mas entender não é preciso. Preciso como em Pessoa, preciso com em precisão. Procissão de fé e carinho. Brota a primeira folha no pé de feijão, canta o perfume do manjericão e a pimenta ri muito dizendo que não. Queimem quem entende o doce picante, fogo é tão bonito. Saiba sorrir, volte a gargalhar. Dance. Quanto tempo fazia que eu não dançava? Tenho medo demais, morte demais, sede demais. Eu dancei de menos. Por medo de te esmagar os dedos, meu querido. Deveria seguir sozinha. Esse corpo sou eu, sempre fui.

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Bicho Papão

Meus medos inex(s?)plicáveis são como ess(t?)as minhas dúvidas de ortografia, simplemente existem, desde sempre, desde antes de haver eu. São Paulo tem uma coisa que eu jurava que era carioca, mas que não é, essa capacidade de me deixar inerte, morrendo de medo, enrolada em posição fetal na frente da tela do computador, da prancheta, do papel.  São Paulo não tem os dentes cariados e decadentes do centro da ex-capital, São Paulo é toda dinâmica, toda estilo, toda corporativa. E eu? Eu morro de medo.

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Eu te gosto

No bairro de São Caetano, cidade de São Salvador, em território baiano nasceu Severino Nonô. Nascido de nove meses, filho de homem e mulher, isso ainda acontece às vezes. Ou não é?
A cigana que leu seu futuro, só lhe disse coisas de agradar. Vai ser boa vida no duro, vai ser rico sem trabalhar. Será senador, deputado ou explorador de mulher. Isso é que é ter sorte o danado. Ou não é? (O destino e desatino de Severino Nonô na cidade do Rio de Janeiro, vai dizer que existe nome melhor que esse pra uma música.)

Eu ouço música como quem lê, ironia sempre me ganha e regência errada que transforma frases simples em pornográficas é absolutamente tudo que alguém precisa no mundo pra me conquistar. Se fazer amor me enoja, te gostar é tão o oposto disso. Por isso, Simonal.

Estou com um gosto amargo de que vão me roubar o cara depois do documentário. E eu sou tão ciumenta.

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Tristeza

brinde2

A clareza que a distância e a saudade dão é triste, mas é tranquila. A felicidade da empolgação do começo é bagunçada. O fim é perspectiva e, felizmente, é doce e triste. Então, um brinde!

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